quinta-feira, 9 de junho de 2016

"A alternância no poder entre as famílias ditas tradicionais de Amargosa" por Tosta Neto

John Locke, na obra Segundo Tratado Sobre o Governo, discorre com assaz clareza sobre a formação da sociedade civil. O filósofo inglês também enfatiza a constituição dos governos, cuja monarquia desponta com o estado de primazia governamental. Locke discute o peso da figura do pai no seio familiar, transformado em chefe da comunidade, depois convertido em rei na sociedade. Ao longo da história, o chefe paterno consolidou seu poder, até transformar o governo numa aristocracia. A origem familiar passou a ser prerrogativa básica para participar do governo, isto é, as magistraturas deveriam ser ocupadas por nobres.
Em Amargosa, a prerrogativa supracitada angariou status de lei inviolável ou cláusula pétrea na definição dos governantes na esfera municipal. A história atesta uma alternância no poder executivo entre nomes advindos de famílias ditas tradicionais, logo, na amarga Amargosa, se tu tens um sobrenome nobre, tu és um candidato em potencial. O mérito, a experiência e o conhecimento de causa são peremptoriamente relegados. O papel primordial da estirpe familiar é nocivo para a qualidade do poder executivo, pois escarra num dos pilares da democracia: a significância do mérito. Amargosa ainda está mui distante da meritocracia e próxima da oligarquia.
Para enriquecer a minha modesta análise, recorro ao período da República Velha, cujo clientelismo foi o motor dos pleitos eleitorais. O coronel, como uma espécie de rei na localidade, é determinante nos rumos econômicos e políticos. O coronelismo ainda é uma mazela viva nas eleições, sobretudo nas cidades pequenas, as quais, estão presas pelos grilhões do voto de cabresto. O eleitor era obrigado a votar no candidato do coronel. Em tempos hodiernos, o eleitor-funcionário é persuadido a votar no prefeito ou no candidato do prefeito sob ameaça de demissão. Esta mentalidade retrógrada corrói outro pilar da democracia: a liberdade de expressão.
Em Brasília, a meritocracia também é desprezada: para ser ministro é preciso ser indicado por algum “padrinho político” ou por um partido da base do governo. Não esqueçamos o clientelismo da propina consagrado pelos tétricos “mensalão” e “petrolão”. Na última década, o clientelismo da propina se transformou em modus operandi nas negociatas espúrias dos políticos na capital federal. No turbilhão de corrupção, “mensalão” e “petrolão”, há um recrudescimento do descrédito da classe política, emanando uma onda de pessimismo no povo. Aparentemente, o Brasil está desnorteado, desnudo de horizonte político.
2016, ano de eleições municipais, tipo de pleito que concede ao eleitor um contato mais direto com os candidatos. Em Amargosa, nada de novo sob o sol. Os pré-candidatos estão no rol das famílias ditas tradicionais que se alternam no poder. Aqui na nossa amarga cidade, se alguém sem sobrenome nobre quiser ser candidato a prefeito, necessita de um recurso deveras utilizado na Idade Média: a compra do título de nobreza. Em primeiro mão Caro Leitor, eu já comprei o meu título de nobreza, já tenho sobrenome tradicional, portanto, serei candidato a prefeito de Amargosa; no momento oportuno, pessoalmente, pedirei para ti o teu voto. Ademais, não basta o nome, o candidato deve exibir na propaganda o seu sobrenome sagrado com todo ardor e jactância. É extremamente árduo quebrar este círculo vicioso de alternância no poder entre os “nobres” amargosenses, pois o quadro político é muito conservador. Só uma Revolução Francesa poderia libertar Amargosa deste monopólio político. Enquanto a Revolução não vem, quiçá jamais venha, as famílias ditas tradicionais continuarão a distribuir as cartas no jogo eleitoral.


Tosta Neto, 09/06/2016

Um comentário:

  1. Ótimo texto! Reflete bem a conjuntura de coisas, não só da nossa cidade, como do nosso país. Parece que o Brasil nunca se livrará de alguns "ranços" que perseguem a nossa política. Usando a frase de Marx: “a história acontece como tragédia e se repete como farsa.” Os nossos políticos vivem a construir uma farsa sem fim e que não tenho esperanças que termine a médio ou longo prazo.

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